seu barulho na cozinha

ora, claro que acordei de ressaca, ouvindo o barulho dela na cozinha, que ignorei, como qualquer cara sensato faria. aí ouvi quando ligou a televisão para assistir o noticiário da manhã. o aparelho estava na mesinha de canto onde se tomava café, que ela passou a coar. o cheiro era gostoso, mas não gostei do toucinho com ovos e batatas, nem tampouco do que dizia o noticiário. senti vontade de mijar e tomár água, mas não queria que ela soubesse que tinha acordado, por isso esperei, bastante chateado, mas louco pra ficar sozinho, ser o dono da casa, e ela não parava mais de fuçar pelos cantos, fodendo a paciência, até que enfim, ouvi ela passar às pressas pelo corredor…
– tenho que ir – anunciou -, já estou atrasada.
– tchau.
depois que ela bateu a porta, levantei e fui sentar na latrina. mijei, caguei, e fiquei ali sentado, longe de casa, onde quer que isso fosse…

no pórtico do quarto penso em dar um corte em quem me embroma

ah vale a pena ser poeta escutar você torcer de volta da chave na fechadura da porta abra volte veja sou um cara sem saída mas não se iluda com esta minha vida toda vez que avisto sua figura leviana no pórtico do quarto penso em dar um corte em quem me embroma sou forte abra volte veja se me entende e me ama desde o berço conservo o mesmo endereço moro na rua real grandeza abra, abra a porta volte e veja você não me engana sozinho sem amor sem carinho não digo com certeza mas posso me arruinar veja jatos de sangue espetáculos de beleza ah vale a pena ser poeta escutar você torcer de volta a chave na fechadura da porta

O projeto desse semestre

A melhoria do uso do Parque se relaciona com a sensibilização dos freqüentadores, na medida que o aumento qualitativo e quantitativo dos freqüentadores ocorre, quando se valoriza sua função de protetor de recursos naturais e espaço de lazer público.

O desenvolvimento de um Parque com qualidade, capaz de exercer de modo eficaz suas funções como área verde urbana, não depende só de investimento público, este deve vir acompanhado do aumento de civismo na comunidade, conseqüência de uma mudança não só comportamental, mas também cultural, já que agrega valores, e visa melhoria da qualidade de vida pela revisão do quadro de segregação da cidade com qualidade.

Segundo Jane Jacobs em Morte e Vida de Grandes Cidades, o comum é esperar que os Parques Urbanos sejam uma ajuda positiva na transformação do entorno, mas o que acontece é justamente o inverso: “Os próprios Parques de bairro é que são direta e drasticamente afetados pela maneira como a vizinhança neles interfere” (JACOBS, 1961).

Temos exemplos dessa relação em São Paulo, onde é comum ver Parques ou praças equipados e abandonados pela comunidade, enquanto outros, talvez nem tão equipados, vivenciam uso intensivo e sadio, o que confere sua utilidade e sucesso, conforme Jacobs completa: “Nas cidades, a animação e a variedade atraem mais animação; a apatia e a monotonia repelem a vida”.

Através de indicadores encontrados na bibliografia pesquisada e pesquisas com a administração e freqüentadores do Parque Guarapiranga, conclui-se que ao seu redor existe um bairro recente que, por oferecer preço menor de moradia, continua recebendo novos moradores, apesar da falta de estrutura básica como saneamento e da fragilidade da área com relação a problemas ambientais, por estar inserido em região de mananciais e da proximidade da Represa Guarapiranga.

Tal exemplo de ocupação remete à fórmula da “área-problema” em “Os embates entre as questões ambientais e sociais no urbano” de Bitoun, que explica a formação de um ambiente urbano de baixa qualidade pelo relacionamento de desigualdade social e degradação do meio. Ou seja, os mais pobres obrigados a ocupar ambientes físicos que, para serem construídos corretamente, exigem custos maiores. (BITOUN, 2003)

O bairro é pouco desenvolvido e diversificado quanto ao uso, basicamente residencial, e vive o êxodo diário de seus moradores buscando o trabalho nos pólos comerciais e industriais da cidade.

Com exceção dos finais de semana, quando recebe visitantes de outros locais da cidade, o Parque vive situação semelhante, pelo uso majoritário de moradores do entorno: restrito aos horários de lazer, fica vazio a maior parte do tempo. Assim, torna-se propício ao mau uso, que busca áreas urbanas deterioradas e nunca ocuparia um Parque apreciado e cheio de vida, e assiste a degeneração de suas funções.

O envolvimento de seus freqüentadores e moradores do entorno em um programa de sensibilização socioambiental pretende proporcionar condições de articulação na comunidade, pela formação de multiplicadores de conhecimento, também conhecidos como articuladores. Gandhi, citado por Pierre Weil, define: “o compromisso do articulador, além de conhecer e buscar praticar na sua vida cotidiana os princípios e valores da cultura de paz é o de mobilizar para disseminação desses valores e contribuir diretamente na execução de projetos”.

A formação da rede social, mobilizada para discutir, entender, propor e praticar soluções às questões que vivenciam, são meios de reanimar a comunidade, no melhor sentido da palavra. Anima em latim é alma, a parte espiritual do homem, e dar uma nova alma pode ser entendido como um renascimento, no hinduísmo, ou à volta da morte, entre os cristãos.

As comunidades são importantes para o envolvimento entre os cidadãos e a identificação com o espaço, na resolução de problemas locais. Segundo Manuel Castells as comunidades são formadas a partir de movimentos urbanos, voltados para interesses comuns, “direcionados a três conjuntos de metas principais: necessidades urbanas de condições de vida e consumo coletivo; afirmação da identidade cultural local; e conquista da autonomia política local e participação na qualidade de vida cidadãos” (O Poder da Identidade – A Era da Informação: Economia, Sociedade e Cultura, vol. 2 – 2000).

Esse caminho para nova vida do bairro, sobrepondo os problemas, desenvolvendo-se e diversificando-se, refletirá o mesmo no Parque por desenvolver sua mais valiosa função, a convivência pública, o encontro e a troca entre pessoas e também promover novos costumes e comportamentos em relação ao meio ambiente e aos espaços públicos. Dessa forma garante suas funções no incremento da qualidade de vida na região.