hora de ir embora

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eu saio do trabalho e ando cinco ou seis quadras em direção ao centro da cidade. o esforço vale pra comer um pouco melhor, num lugar agradável e pagar menos por isso. e é uma boa caminhada. nessa hora os prédios antigos ficam bonitos, iluminados pelos postes e luzes coloridas dos bares, o barulho de motores cede um pouco pra conversas e música e gritos dos camelôs. na maior parte do ano o tempo está bom e a brisa da noite não me deixa suar.

quando eu passo nem é tão cedo mas a rua continua cheia de pessoas saindo dos prédios ocupados por repartições públicas, escritórios de advocacia e empresas de telemarketing. eles descem na direção do metrô e alguns param nos bares e conversam. as roupas sociais deixam todos com uma pose besta, como se fossem algo a mais por conta do desconforto e padronização… as mulheres ficam bem com as calças pretas de tecido leve e justas.

atravesso as fachadas desviando de quem vem, de quem sai dos lugares e de quem anda muito devagar, dando um jeito de evitar esbarrões. nesse lance rápido entre as pessoas que se cruzam as vezes penso no por quê daquele justo momento e lugar. será que essa pessoa também trabalha por aqui há muitos anos, será que gosta daqui, será que me achou estranho pra esse lugar? muitas vezes as pessoas se encostam e se encaram, é impossível que não notem umas às outras. é mais estranho quando percebo alguem em que me vejo por algum motivo simples como o jeito de andar, o tamanho dos olhos, a barba ou cabelo. o que esse cara tá fazendo aqui e agora? por que se parece comigo? será que teve chances de escolher como eu tive? a cidade nos assusta. todos os caminhos são tortos e muitos levam a nenhum lugar.