“Minha mente está curiosamente alerta; é como se meu crânio tivesse dentro mil espelhos. Meus nervos estão tensos, vibrantes! As notas são como bolas de vidro dançando sobre um milhão de jatos de água. Nunca antes estive em um concerto com a barriga tão vazia. Nada me escapa, nem sequer o menor alfinete caindo. É como se eu não tivesse roupas e cada poro do meu corpo fosse uma janela, e todas as janelas abertas, e a luz inundando minhas entranhas. Posso sentir a luz curvando-se sob a abóbada de minhas costelas, e minhas costelas lá penduradas sobre uma nave oca, trêmula de reverberações. Não faço a menor idéia de quanto tempo dura isso; perdi toda noção de tempo e espaço. Depois do que parece uma eternidade segue-se um intervalo de semiconsciência equilibrado por uma tal calma que sinto um grande lago dentro de mim, um lago de lustro indecente, frio como geléia; e, sobre esse lago, erguendo-se em grandes e amplas espirais, emergem grandes bandos de pássaros, enormes pássaros migradores com longas e finas pernas e brilhante plumagem. Bando após bando ergue-se da superfície fria e parada do lago e, passando por baixo de minhas clavículas, perde-se no mar branco do espaço. E depois devagar, muito devagar, como se uma mulher velha de touca branca estivesse dando a volta pelo meu corpo, vagarosamente as janelas se fecham e meus órgãos caem de novo no lugar. “

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