perde-se o chão

Sim, essa aceleração faz que o ritmo do tempo do trabalho se estenda a todos os domínios da vida. O que parece não ser recoberto pelo ritmo do trabalho é recoberto pelo ritmo do consumo. O ritmo do lazer, quando é traduzido em atividades de consumo, e com a urgência do apelo do consumo, faz que seja quase a mesma coisa. As pessoas trabalham e se divertem com o mesmo afã de produtividade, de exibir resultados… Se há uma hipótese original nesse livro é a de que o crescimento das depressões em parte é tributário desse atropelamento do tempo subjetivo pela aceleração da vida contemporânea. Esse atropelamento não é só no sentido psíquico profundo, mas é a desvalorização do vivido. A dimensão da memória, do passado, do devaneio, daquilo que Walter Benjamin chama de experiência, tudo isso, com a necessidade de estar sempre respondendo a estímulos, se empobrece. Para além do quadro clínico de depressão há um sentimento generalizado de desvalorização da vida, de por que eu vivo, o que vale isso.

Daqui.

O problema é que, para isso, o que está aí hoje não pode conviver com o “novo mundo”, deve ser expulso, exterminado para que o território liso dê lugar ao “shopping center”. Essa reorganização do território em função da renda vai expulsando uma grande quantidade de pessoas que ficam fora do padrão de consumo que o novo “jardim” estabelece. Isso mostra como na cidade de São Paulo os espaços comuns são privatizados expandindo as fronteiras a partir desse critério, marcando limites e expulsando as pessoas para fora deles. Dos escombros da cidade, a “velha nova luz” parece repetir esta fórmula, apagando para erguer um “novo” sempre elitista sobre o território. Afetando os sentidos de nossa própria constituição, que gera o desespero de ficar a cada momento “sem chão”, de ver aquilo que se constitui como uma referência para um grupo, para duas amigas, para um par de amantes, se desintegrar ante nossos olhos sistematicamente, enchendo-nos de promessas de um futuro melhor, mais moderno, mais confortável, lotado de prédios de “alto padrão”.

Daqui.