Chimoio e Zimbábue

Em Agosto de 2010 fui a Chimoio, unica cidade e capital da Província de Manica, região centro de Moçambique. Vila Pery, como era conhecida no período colonial, fica numa zona montanhosa e fria, propícia pra agricultura. Na ocasião da minha visita acontecia o Festival Nacional de Cultura, com atrações musicais, teatrais, artesanato e gastronomia de todo país.

Essa foto é do Mercado Municipal de Chimoio, onde também gravei esses videos:

As senhoras cantam e dançam após um dia de trabalho no mercado. O som é de um batuque improvisado em galões de plástico. Provavelmente cantam em chona, língua predominante nessa região de Moçambique e também em parte do Zimbábue. A música é semelhante àquela das cerimônias que vi em Tete: ver mais aqui e aqui.

Esse foi o Festival. O palco principal estava do outro lado desse campo de futebol… localizado e preparado mais para ser televisionado do que visto pela população na arquibancada.

Nessa viagem notei algumas famílias que saem do Zimbábue e viajam até Chimoio para fazer compras no supermercado (estrangeiro) da cidade. Isso é, segundo me contaram, o mesmo que acontecia 15 anos atrás, mas no sentido inverso. Atualmente, as cidades do centro de Moçambique (Tete, Chimoio e Beira), assim como a capital Maputo, recebem muitos imigrantes zimbabuanos. Em Tete é comum encontrar alguns empregados como gaçons, como já falam inglês e tem facilidade em atender os muitos fregueses estrangeiros que vivem na cidade. O curioso é como o moçambicano enche a boca para falar do Zimbábue pré-crise como potência da África Austral, junto da África do Sul. Segundo dizem, lá produzia-se muitos gêneros agrícolas e flores para exportação, as cidades eram organizadas em quadras (ao contrário da maior parte moçambicana) e muito civilizadas (‘não se via lixo na rua’), a quantidade de carros nas ruas era grande. A manobra de Mugabe, de expulsar os boers (fazendeiros brancos) do país, é visto por todos como motivo para o declínio.

perde-se o chão

Sim, essa aceleração faz que o ritmo do tempo do trabalho se estenda a todos os domínios da vida. O que parece não ser recoberto pelo ritmo do trabalho é recoberto pelo ritmo do consumo. O ritmo do lazer, quando é traduzido em atividades de consumo, e com a urgência do apelo do consumo, faz que seja quase a mesma coisa. As pessoas trabalham e se divertem com o mesmo afã de produtividade, de exibir resultados… Se há uma hipótese original nesse livro é a de que o crescimento das depressões em parte é tributário desse atropelamento do tempo subjetivo pela aceleração da vida contemporânea. Esse atropelamento não é só no sentido psíquico profundo, mas é a desvalorização do vivido. A dimensão da memória, do passado, do devaneio, daquilo que Walter Benjamin chama de experiência, tudo isso, com a necessidade de estar sempre respondendo a estímulos, se empobrece. Para além do quadro clínico de depressão há um sentimento generalizado de desvalorização da vida, de por que eu vivo, o que vale isso.

Daqui.

O problema é que, para isso, o que está aí hoje não pode conviver com o “novo mundo”, deve ser expulso, exterminado para que o território liso dê lugar ao “shopping center”. Essa reorganização do território em função da renda vai expulsando uma grande quantidade de pessoas que ficam fora do padrão de consumo que o novo “jardim” estabelece. Isso mostra como na cidade de São Paulo os espaços comuns são privatizados expandindo as fronteiras a partir desse critério, marcando limites e expulsando as pessoas para fora deles. Dos escombros da cidade, a “velha nova luz” parece repetir esta fórmula, apagando para erguer um “novo” sempre elitista sobre o território. Afetando os sentidos de nossa própria constituição, que gera o desespero de ficar a cada momento “sem chão”, de ver aquilo que se constitui como uma referência para um grupo, para duas amigas, para um par de amantes, se desintegrar ante nossos olhos sistematicamente, enchendo-nos de promessas de um futuro melhor, mais moderno, mais confortável, lotado de prédios de “alto padrão”.

Daqui.

tem a versão remasterizada do reign in blood, e como é uma experiência agradável redescobrí-lo. a forma mais indicada para isso é usando-o como trilha sonora de um enfrentamento, tanto faz do quê. eu gosto de fazê-lo contra a cidade, e transpô-la à minha vontade. é meu desafio.

mesmo sem ter comprado o disco em 86, é talvez o que mais ouvi na vida. já em cd, em mais um reembolso postal da loja rock machine (encartado em quarquer nº de rock brigade), junto de camisetas mal teladas e demais artefatos metálicos, quando morava em campinas/sp ou tubarão/sc.

a tal da experiência na rua nao requer nada de mais, talvez cervejas e um bom cynar a potencializem. e garantio que a sequencia altar of sacrifice e jesus saves não será a mesma. to lembrado que já recomendei sabbath como desculpa para entorpecimento de alguns (sem nomes), mas thrash metal funciona tão bem quanto. gostei como criminally insane ganha realismo e o vocal salta na cara. percebi até certa rouquidão, como voz forçada depois de esforço. nem parece mega cleanproduction de rick rubin.

é interessante como um disco já tão acostumado (no sentido de quando ouvir mal perceber música, mas lembranças que essa traz), consegue ganhar reinterpretação apenas pela releitura da produção, sem notar nenhuma nota a mais, afinal todos riffs, solos, sílabas e levadas são decorados e fazem parte dessa nuvem que é a experiência anterior de repetidas milhões de audições em situações diferentes.