seu barulho na cozinha

ora, claro que acordei de ressaca, ouvindo o barulho dela na cozinha, que ignorei, como qualquer cara sensato faria. aí ouvi quando ligou a televisão para assistir o noticiário da manhã. o aparelho estava na mesinha de canto onde se tomava café, que ela passou a coar. o cheiro era gostoso, mas não gostei do toucinho com ovos e batatas, nem tampouco do que dizia o noticiário. senti vontade de mijar e tomár água, mas não queria que ela soubesse que tinha acordado, por isso esperei, bastante chateado, mas louco pra ficar sozinho, ser o dono da casa, e ela não parava mais de fuçar pelos cantos, fodendo a paciência, até que enfim, ouvi ela passar às pressas pelo corredor…
– tenho que ir – anunciou -, já estou atrasada.
– tchau.
depois que ela bateu a porta, levantei e fui sentar na latrina. mijei, caguei, e fiquei ali sentado, longe de casa, onde quer que isso fosse…

bahia ou são salvador

o dia passou-se deliciosamente. mas “delicia” é termo insuficiente para exprimir as emoções sentidas por um naturalista que, pela primeira vez, se viu a sós com a natureza no seio de uma floresta brasileira. a elegância da relva, a novidade dos parasitos, a beleza das flores, o verde luzidio das ramagens e acima de tudo, a exuberância da vegetação em geral, foram para mim motivos de uma contemplação maravilhada. o concerto mais paradoxal de som e de silêncio reina à sombra dos bosques. tão intenso é o zumbido dos insetos que pode perfeitamente ser ouvido de um navio ancorado a centenas de metros da praia. apesar disso, no recesso íntimo das matas, a criatura sente-se como que impregnada de um silêncio universal. para o amante da história natural, um dia como este traz consigo uma sensação de que jamais se poderá, outra vez, experimentar tão grande prazer.

29 de fevereiro, 1932 – charles darwin em viagem de um naturalista ao redor do mundo