Casas, prédios e a cidade velha

Nas cidades de Moçambique grande parte das construções são antigas e estão mal preservadas. Belas casas, prédios residenciais e comerciais, todos com cara de que já tiveram dias melhores. Muitos são da época colonial (que foi até 1975), e nunca passaram por reformas. De lá pra cá, o país passou boa parte do tempo enfiado numa guerra interna brava. Diz-se que esses anos de conflito ocasionaram um grande êxodo rural, e que a população desacostumada com as habitações urbanas detonou (ou recriou) casas e apartamentos. Faziam desde roça nos banheiros à fogueiras com os tacos de madeira dos pisos. Hoje o aspecto das cidades me estranha de uma forma particular: chamam atenção pela beleza das construções, mas cria-se um certo mal estar pelo seu estado destruído. É aquela história do bonito-feio, feinho-interessante. Isso deve se dar principalmente pelo uso intenso das construções e das ruas pelas pessoas.

Em Tete são os prédios residenciais que chamam atenção.

Mas foi na cidade de Beira, a segunda maior do país, onde essa história ficou mais clara pra mim. Bom frisar que essas casas ficam na região central da cidade.

A casa dessa última foto tem uma lojinha na garagem, o que é bem comum aqui. Vende-se bebidas e algumas comidas, doces.

voz do mar, rio, corrego, riacho ou tubulações

esses dias coincidiu de ouvir isso e ler isso:
foi o primeiro som que se fez ouvir? foi a carícia das águas. o oceano dos nossos ancestrais encontra-se reproduzido no últero aquoso de nossa mãe e está quimicamente relacionado com ele. oceano e mãe. ondas fustigadas na ressaca, arremessando as primeiras rochas, enquanto o anfíbio surge no mar. e embora ele possa, ocasionalmente, dar as costas às ondas, nunca escapará de seu encanto atávico. “o homem sábio deleita-se com a água”, diz Lao-tsé. todos os caminhos do homem levam à água. ela é o fundamento da paisagem sonora original e o som que, acima de todos os outros, nos dá o maior prazer, em suas incontáveis transformações. – Murray Schafer

agora quase dá pra entender o nome do blog.

Em primeiro lugar, ensinar as pessoas como ouvir mais cuidadosa e criticamente a paisagem sonora. Depois, precisamos solicitar sua ajuda para replanejá-la.

O combate à poluição sonora pela diminuição do ruído é uma abordagem negativa. É possível uma maneira de tornar a acústica ambiental um programa de estudos positivo. Que sons queremos preservar, encorajar, multiplicar? Quando soubermos responder a essa pergunta, os sons desagradáveis ou destrutivos predominarão a tal ponto que saberemos por que devemos eliminá-los. Somente uma total apreciação do ambiente acústico pode nos dar recursos para aperfeiçoar a orquestração da paisagem sonora mundial.

R. Murray Schafer, Afinação do Mundo.

bahia ou são salvador

o dia passou-se deliciosamente. mas “delicia” é termo insuficiente para exprimir as emoções sentidas por um naturalista que, pela primeira vez, se viu a sós com a natureza no seio de uma floresta brasileira. a elegância da relva, a novidade dos parasitos, a beleza das flores, o verde luzidio das ramagens e acima de tudo, a exuberância da vegetação em geral, foram para mim motivos de uma contemplação maravilhada. o concerto mais paradoxal de som e de silêncio reina à sombra dos bosques. tão intenso é o zumbido dos insetos que pode perfeitamente ser ouvido de um navio ancorado a centenas de metros da praia. apesar disso, no recesso íntimo das matas, a criatura sente-se como que impregnada de um silêncio universal. para o amante da história natural, um dia como este traz consigo uma sensação de que jamais se poderá, outra vez, experimentar tão grande prazer.

29 de fevereiro, 1932 – charles darwin em viagem de um naturalista ao redor do mundo