VII BIMESP 2008

Complementando o último post, agora que descobri mais sobre o evento. Pelo jeito pouca gente sabe como e quando são as apresentações. Tem pouca informação na internet e algumas pessoas caíram aqui ao fazerem busca “VII BIMESP 2008” no google.

Pelo folder do evento: Em sua sétima edição, a BIMESP 2008 apresenta obras significativas do repertório internacional da música aletroacústica, premiadas do CIMESP 2007, além de concertos em homenagem póstuma a Karlheinz Stockhausen e aos 100 anos de nascimento de Olivier Messiaen. A programação conta ainda com o concerto-revisita de Gustav Mahler em gravação multipista de sua obra e transcrição inédita para dois painos por Flo Menezes.

A programação conta com o que chamam de Paineis: da Atualidade, da Música Mista, do CIMESP, e alguns outros. 2 desses serão apresentações musicais da maneira mais tradicional, pessoas tocando música com instrumentos, e esses processados eletrônicamente. Os demais Paineis, provavelmente são como o que fui na última sexta, “Painel dos países: Argentina”, no Auditório do SESC Vila Mariana. Onde as músicas foram reproduzidas mecanicamente em sistema multipista e (bem) sonorizadas em polifonia.

O “concerto” foi uma seleta de artistas argentinos atuais representantes da produção eletroacústica e apresentado e comentado por Flo Menezes. Eu desconhecia que a Argentina teve o primeiro estudio/laboratório do gênero na América do Sul e que possui bom repertório, artistas e escolas. As músicas foram boas, com lindos timbres e ambiências. Gostei mais do Fabían Luna, que mandou a mais forte e menos espacial das faixas, o que pra mim é ponto positivo.

O mais interessante do evento é justamente a oportunidade de destinar totalmente um espaço, mesmo que por um momento, ao som e a audição. Total desenvolvimento do sentido e asas à imaginação. Nada visual: nenhum rosto, capa de disco, alguem balançando varinha ou guitarra em forma de V. Só som e som.

Já os concertos serão essa semana, no teatro do SESC Vl. Mariana. E destaco dois:
Quarta, 20 às 21h. Painel da música mista 2 – Gustav Mahler revisitado – para dois pianos e eletrônica em tempo real.
Quinta, 21 às 21h. Painel da personagem – homenagem póstuma a Karlheinz Stockhausen – piano, percussão e difusão eletroacústica.

O restante da programação aqui.

voz do mar, rio, corrego, riacho ou tubulações

esses dias coincidiu de ouvir isso e ler isso:
foi o primeiro som que se fez ouvir? foi a carícia das águas. o oceano dos nossos ancestrais encontra-se reproduzido no últero aquoso de nossa mãe e está quimicamente relacionado com ele. oceano e mãe. ondas fustigadas na ressaca, arremessando as primeiras rochas, enquanto o anfíbio surge no mar. e embora ele possa, ocasionalmente, dar as costas às ondas, nunca escapará de seu encanto atávico. “o homem sábio deleita-se com a água”, diz Lao-tsé. todos os caminhos do homem levam à água. ela é o fundamento da paisagem sonora original e o som que, acima de todos os outros, nos dá o maior prazer, em suas incontáveis transformações. – Murray Schafer

agora quase dá pra entender o nome do blog.

Em primeiro lugar, ensinar as pessoas como ouvir mais cuidadosa e criticamente a paisagem sonora. Depois, precisamos solicitar sua ajuda para replanejá-la.

O combate à poluição sonora pela diminuição do ruído é uma abordagem negativa. É possível uma maneira de tornar a acústica ambiental um programa de estudos positivo. Que sons queremos preservar, encorajar, multiplicar? Quando soubermos responder a essa pergunta, os sons desagradáveis ou destrutivos predominarão a tal ponto que saberemos por que devemos eliminá-los. Somente uma total apreciação do ambiente acústico pode nos dar recursos para aperfeiçoar a orquestração da paisagem sonora mundial.

R. Murray Schafer, Afinação do Mundo.

bahia ou são salvador

o dia passou-se deliciosamente. mas “delicia” é termo insuficiente para exprimir as emoções sentidas por um naturalista que, pela primeira vez, se viu a sós com a natureza no seio de uma floresta brasileira. a elegância da relva, a novidade dos parasitos, a beleza das flores, o verde luzidio das ramagens e acima de tudo, a exuberância da vegetação em geral, foram para mim motivos de uma contemplação maravilhada. o concerto mais paradoxal de som e de silêncio reina à sombra dos bosques. tão intenso é o zumbido dos insetos que pode perfeitamente ser ouvido de um navio ancorado a centenas de metros da praia. apesar disso, no recesso íntimo das matas, a criatura sente-se como que impregnada de um silêncio universal. para o amante da história natural, um dia como este traz consigo uma sensação de que jamais se poderá, outra vez, experimentar tão grande prazer.

29 de fevereiro, 1932 – charles darwin em viagem de um naturalista ao redor do mundo